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O Desenvolvimento Inacabado do Brasil
Foto: Reprodução.

O superintendente da ABDE, Marco Antonio Albuquerque de Araujo Lima, lança hoje (21/06/10) o livro O Desenvolvimento Inacabado do Brasil: o BNDE e a convenção do crescimento (254 p, BNDES), obra que analisa o período de desenvolvimento brasileiro do pós-guerra, que coincide com a criação do BNDE – sem o S de Social – até o II PND. O livro é a tese de mestrado do autor no curso de Ciências Sociais na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

O lançamento será na Livraria da Travessa, na rua Sete de Setembro, 54, centro do Rio, a partir das 18h desta segunda-feira.

Marco Antonio Albuquerque de Araújo Lima é aposentado do BNDES e atual superintendente-executivo da ABDE, instituição que tem a função de fortalecer as agências e bancos de fomento estaduais. Durante a sua carreira no BNDES, Marco foi superintendente industrial da instituição (na presidência de Marcio Fortes) e diretor do BNDES-Exim Além disso, assumiu a presidência da CODIM conduzindo a atração das fábricas Volkswagen e Peugeot para o estado do Rio. Foi ainda presidente do Inmetro e diretor do INPI. No currículo, ele acumula mestrado em Administração no Instituto Coppead com extensão em Finanças em Wharton (Filadélfia) e mestrado em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade na área de Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Leia abaixo a entrevista sobre o livro publicada na edição 249 da Revista Rumos:

O BNDE e a Convenção do Crescimento de 1952 a 1978

Dissertação transformada em livro analisa o período de desenvolvimento brasileiro do pós-guerra, que coincide com a criação do BNDE – então sem o S de social – até o final do II PND.

Qual a sua principal motivação para escrever esta obra?

Marco Antonio – Minha motivação se deve à rica trajetória que experimentei nas duas primeiras décadas de trabalho no BNDES. Ingressei nesta instituição em 1974, quando o mundo começava a vivenciar o choque do petróleo. Aquela foi uma fase difícil, mas encarada pela direção do Banco como uma oportunidade para pensar soluções para a economia do país. Com a participação do BNDE, presidido, na época, por Marcos Vianna, a Secretaria de Planejamento da Presidência, cujo chefe era o Ministro João Paulo dos Reis Velloso, lançou o II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), com investimentos para completar a industrialização do país. Naquela ocasião, convivi com grandes nomes do BNDE, entre eles, três unanimidades: Ignácio Rangel, José Pelúcio Ferreira e Juvenal Osório. Eles participaram da fundação do Banco e, depois, durante a execução do II PND, compartilharam com enorme entusiasmo suas experiências com a nova geração que lá chegava.

O BNDE financiou os investimentos para completar a matriz industrial brasileira e, na década seguinte, quando a crise internacional se tornou mais forte, recebeu a incumbência de minorar seus efeitos. Participei da montagem do novo sistema de planejamento do Banco e, depois, de sua administração, como superintendente da Área Industrial. Sugerimos a integração competitiva – o sucedâneo da substituição de importações –, uma estratégia arrojada para a época, cuja implantação não ocorreu, em função de falta de consenso político e, assim, não houve a possibilidade de o Brasil manter o ritmo de crescimento. A inquietação decorrente dessas experiências me fez pensar em escrever sobre o desenvolvimento brasileiro, sob a ótica do BNDES.

A que se refere o “inacabado” no título?

O título sugere a ideia de um projeto que não foi concluído. O Brasil foi, no mundo, o país que mais cresceu de 1930 a 1978, período em que houve no entendimento de Antonio Barros de Castro uma Convenção pelo Crescimento. O Brasil foi o que a China vem sendo desde 1980. A nossa média de crescimento era de 6,2% ao ano, ou seja, o Brasil de 1978 era vinte vezes maior que o Brasil de 1930. Em 1979, o país, que se saíra bem do primeiro choque do petróleo, começou a ter problemas depois do segundo e com o aumento dos juros nos Estados Unidos. A partir da crise da dívida externa mexicana, o Brasil enfrentou problemas para equacionar suas questões econômicas e passou a conviver com crises, sem conseguir crescer como antes. Com o crescimento interrompido, tornou-se impossível saldar a dívida social que não fora bem equacionada durante a Convenção do Crescimento. Por isso, o desenvolvimento do Brasil ficou inacabado.

A publicação do livro coincide com a retomada do crescimento nacional, com efetiva participação do BNDES. Foi proposital?

Não foi proposital, mas é uma feliz coincidência. O projeto da dissertação que deu origem ao livro é de 1992, quando cursei o mestrado da Coppead. No entanto, só vim a realizá-lo em 2006, sob a orientação da professora Ana Célia Castro, do Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da UFRRJ. Na conclusão, fiz uma provocação ao BNDES para que corresse mais riscos como nos tempos da Convenção do Crescimento. Utilizei uma metáfora com a águia americana, aliás, apreciada pelo Ricardo Bielschowsky, prefaciador do livro. Ao completar 40 anos, ela depara com duas alternativas: aceitar sua morte por envelhecimento ou voar para uma colina e arrancar seu bico e garras para que novas venham a nascer. Depois de rejuvenescida, voa muito alto e volta a caçar. Finalizei sugerindo que o Banco, que já estava se rejuvenescendo, voasse com ousadia e bem alto.

Quando me aposentei em junho de 2008, escrevi uma correspondência de despedida ao professor Luciano Coutinho, atual presidente do BNDES, com quem havia trabalhado, em 1985, no Ministério da Ciência e Tecnologia. Estava emocionado e, ao final da carta, sugeri a publicação da dissertação, por se tratar da história do Banco contada por aqueles que a fizeram, pois realizei 49 entrevistas com colegas de várias gerações. Pesquisei, também, as entrevistas do acervo do Projeto Memória realizado pelo BNDES e o CPDOC/FGV, em 1982, entre elas, as de Celso Furtado, Rômulo de Almeida e Roberto Campos, expoentes da criação e consolidação do Banco.

O presidente Luciano Coutinho aprovou a solicitação, e, coincidentemente, o livro ficou pronto no momento em que o Estado volta a ser valorizado como agente do desenvolvimento, depois da crise de 2008, e o BNDES está voando alto. Em 2009, o Banco liberou cerca de R$ 130 bilhões, fazendo desenvolvimento com qualidade, como nos tempos do Plano de Metas na década de 1950 e do II PND na década de 1970, os dois programas mais importantes executados pelo Banco e que estão retratados no livro. E há indicações de que o Brasil pode entrar em uma nova Convenção, desta vez, com inclusão social.

A quem se destina o livro?

Sempre tive em mente que os meus colegas mais novos do BNDES, que estão assumindo a direção do Banco, deveriam conhecer esta história. Mas o livro se destina também a todos aqueles que fazem o desenvolvimento do Brasil: políticos, lideranças sindicais e empresariais, profissionais e dirigentes das instituições financeiras de desenvolvimento, servidores públicos, estudantes, professores e a quem mais se julgue responsável em transformar o Brasil num país mais justo e equânime.

(Entrevista publicada originalmente na ed. nº 249, pág. 49, Seção Livros, Revista Rumos).

Fonte: ABDE (Assessoria de Comunicação)

 

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