ENTREVISTA COM O PRESIDENTE DA DESENBAHIA, LUIZ ALBERTO PETITINGA
29/09/2008
'Vai cair um pouco a rentabilidade do produtor'
Luiz Alberto Petitinga é Professor de Economia da Universidade Federal da Bahia e presidente da Agência de Fomento do Estado da Bahia (Desenbahia)
O Brasil e, especificamente, a Bahia, sofrerão reflexos da crise na economia americana. Quem faz esta advertência é o economista e professor Luís Petitinga, que desde o ano passado dirige a Agência de Fomento do Estado da Bahia. Em entrevista exclusiva ao repórter DONALDSON GOMES, Petitinga afirma que os efeitos da crise financeira não serão suficientes para desestabilizar o Brasil. Apesar da afirmação, o economista acredita que a rentabilidade dos produtores do oeste do Estado poderá cair um pouco, mas, segundo afirma, essa possível queda não vai fazer com que os agricultores percam dinheiro ou passem a plantar em uma área menor nas próximas safras. Na sua avaliação, o que pode acontecer é que estes produtores que trabalham com as commodities deixem de ampliar a área de plantio ou de comprar mais máquinas, mas com certeza, segundo afirmou Petitinga, não vai deixar de plantar. O economista diz que o País precisa melhorar a logística do transporte para ser mais competitivo no agronegócio e rentabilizar melhor o produtor interno para que este tenha um melhor retorno do agricultor.
Petitinga diz ainda que a Bahia continua competitiva.
A TARDE | A atual crise na economia dos Estados Unidos tem sido comparada com o que aconteceu em 1929, quando a quebra da Bolsa de Nova Iorque precedeu a chamada “grande depressão”, cujos reflexos foram recessão e um aumento nas taxas de desemprego.
A crise é tudo o que se está dizendo? LUIZ PETITINGA | Tem um aspecto em que se pode fazer algum tipo de comparação, que é o fato de que nós estamos em uma crise que se iniciou pelo mundo financeiro.
Mas há diferenças que são significativas.
Primeiro, que o mundo de 1929 não tem nenhuma relação em termos de informação e de relacionamento global com o mundo presente. Hoje, a Bolsa de Nova Iorque, para tomarmos um exemplo, negocia títulos que não dizem respeito apenas a empresas norteamericanas, muito menos, sediadas nos Estados Unidos. É uma bolsa que negocia papéis de empresas de todas as partes do mundo e que às vezes não têm nenhuma filial ou sucursal nos Estados Unidos. São essas características que o mundo de 1929 não conhecia.
O mundo hoje é muito mais complexo em termos das funcionalidades financeiras e também da tecnologia da informação. Hoje as exigências dos investidores são maiores.
AT | Existe alguma indicação de como essa situação vai se refletir na economia mundial em 2009? LP | Este é umfenômeno que começou no financeiro, mas sem sombras de dúvida vai gerar perda de riquezas de todas as formas que o homem conhece. Na verdade, vai gerar uma perda generalizada na sociedade. A liquidez, ou seja, a disponibilidade de recursos para crédito, vai se reduzir, o que vai afetar naturalmente o chamado mundo real. Vai haver menos crédito, as empresas terão menos recursos para giro e farão menos investimentos, seja porque o dinheiro vai ficar mais curto ou por causa de uma redução de demanda, por conta exatamente das perdas de riquezas na sociedade. Então, eu não vejo como o mundo não ser afetado. O comércio mundial vai se reduzir por conta da restrição das atividades em algumas economias, principalmente a americana, a européia e a japonesa, que já apresentam sintomas de arrefecimento.
AT | Quando os reflexos da crise serão percebidos? LP | Isso já começa a ser percebido.
A queda no preço das commodities não é uma coisa de volatilidade de curto prazo, não. É uma tendência que já começa a se prenunciar.
Nós não podemos dizer a magnitude desta queda. Mas deve acontecer. Naturalmente, como estavam em um patamar muito elevado, é possível que isso reduza um pouco a lucratividade das empresas, mas não a ponto de provocar prejuízos.
AT | Essa diminuição no preço não seria uma acomodação em um patamar mais próximo da realidade? LP | Issoéverdade.Muitos analistas chamam a atenção de que os preços não estão inflados por conta da demanda mundial, que afeta muito, mas sim por conta dos efeitos dos mercados futuros, em que se negocia títulos referenciados em mercadorias. Isso acaba influenciando o preço físico das mercadorias. O que podemos dizer é que a queda nos preços das commodities seria uma acomodação.
Ainda não é um reflexo de uma queda na demanda, mas sim uma perda de gordura por conta da redução do efeito especulativo nos mercados futuros.
AT | Muitos produtos importantes na pauta de exportação da Bahia são commodities, com destaque para o agronegócio. Como é que isso vai se refletir na realidade baiana? LP | Aminhaapostaéqueaqueda de preços desses produtos ainda não afete o agronegócio baiano, haja vista que há certa gordura aí.
Vai cair um pouco a rentabilidade do produtor do oeste, mas não vai fazer com que ele perca dinheiro ou passe a plantar em uma área menor nas próximas safras. Não vai acontecer isso. Pode ser que deixe de ampliar a área de plantio ou de comprar mais máquinas, mas com certeza não vai deixar de plantar.
AT | Até porque o produtor pode ter a valorização do dólar como um contraponto, não é? LP | Esseéumoutroponto.Aqueda no preço dessas exportações pode ser compensada pelo retorno do dólar a uma posição mais apreciada.
A expectativa que se tinha até o meio do ano, de que o dólar encerrasse com uma cotação de até R$ 1,72, deve ser superada, com possibilidade de chegar a R$ 1,77.
Isso já compensa, ou pode até superar uma possível perda de valor para as commodities.
AT| Houve comentários de que a crise americana não traria tantos problemas para a economia brasileira, mas não estamos falando do principal parceiro comercial do Brasil? LP | É verdade, trata-se de um parceiro importante. Agora, é preciso observar o crescimento de outros parceiros, com uma diversificação na pauta de exportações, o que é muito importante. A gente começa a perceber a presença de países que não eram relevantes na pauta de negociações do Brasil.
Podemos falar de Índia e África do Sul por exemplo, que têm maior presença na pauta de exportações brasileira, junto com alguns países do Oriente Médio. Isso vai trazendo uma melhoria. Não é que o efeito desapareça, mas vai ser um pouco atenuado, reduzido.
AT| Nosúltimostrêsmeseshavia uma preocupação com relação à inflação, que começou a se estabilizar até com algumas tendências de deflação. A valorização do dólar e a exportação voltando a ser interessante não vai estimular novos aumentos da inflação? LP | Opreçodemuitosprodutosé cotado no mercado internacional e lamentavelmente o cidadão brasileiro só percebe o aumento nos preços quando está no mercado.
Se a gasolina sobe, em algum momento o motorista vai sentir isso na bomba de gasolina. Esses preços globais não se tem como separar dos preços internos. Quanto aos preços internos, vai depender da relação entre a desvalorização das commodities e o real. Nesse movimento, um compensa o outro.
Se a desvalorização do real for mais intensa que o preço das commodities, a gente pode ter um efeito inflacionário sério. Mas, se a queda for proporcional, não vejo maiores impactos sobre os preços internos, até porque, se a demanda arrefecer um pouco, pode compensar o efeito inflacionário. Então eu não vejo que este fenômeno seja capaz de provocar uma forte aceleração de preços neste momento.
AT | Então, a questão inflacionária está sob controle? LP | Neste momento, nãoéoproblema principal. O mais preocupante em meu entender é o déficit em transações correntes, porque, se o déficit entre o total de pagamentos que o País faz no exterior e o total de recebimentos fosse assumindo proporções crescentes seria ruim, porque o débito só poderia ser financiado via ingresso de investimentos externos ou com a queima de reservas. Enquanto os investimentos externos diretos forem favoráveis, como estão neste ano, mesmo que não na mesma proporção, já ajuda. Neste caso, a própria desvalorização cambial acaba ajudando a equilibrar.
AT| Asaçõesdaequipeeconômi-ca do governo estão corretas? LP | O Banco Central (BC) repete como profissão de fé que o compromisso dele é com as metas inflacionárias.
Nós vimos tendo desde agosto um declínio nas taxas de inflação pelo IPC-A. Nós acreditamos que este movimento seja tendencial, que os preços comecem a arrefecer. O BC poderia até manter uma política mais agressiva para evitar uma fuga de capitais, só que não é o caso, porque os indicadores da economia brasileira são sólidos. A dívida pública não apresenta risco. Nós temos um volume de reservas considerável.
Por outro lado, diria que o máximo que o BC poderia fazer é manter as taxas no patamar atual para atrair investidores, enquanto o cenário internacional se mantiver na situação atual, para manter a atratividade para os investidores no Brasil e evitar maiores abalos.
AT | Recentemente, o Brasil foi considerado um país bom para investimento e, no auge da crise das hipotecas, o Risco Brasil aumentou aproximadamente 100 pontos em um curto espaço de tempo. Sinal de problemas no Brasil? LP | Em economia, trabalha-se com probabilidade, mas isso tem uma capacidade de fugir à regra, até porque nem todas as informações estão disponíveis no momento em que se faz a previsão. O fenômeno econômico não é algo controlável. Lamentavelmente, nós recebemos o Investment Grade (título dado a países considerados seguros para investimento internacionais) em um momento delicado. O risco Brasil se elevou mais de 100 pontos base em mais de uma semana, mas isso é próprio da volatilidade diante a crise, quando a aversão a riscos aumenta muito. Nessa hora, a escolha de investidores é por papéis que apresentam risco mínimo. A bolsa deve cair um pouco mais. Isso é algo esperado. O que se pode dizer é que o investimento direto do exterior vai cair, mas ainda será significativo no financiamento de nosso déficit de transações correntes.
AT | O que o Brasil precisa fazer para entrar no caminho do desenvolvimento sustentável? LP | O País precisa melhorar muito a logística do transporte para ser mais competitivo no agronegócio e rentabilizar melhor o produtor interno, melhorando o retorno do agricultor. Falo também sobre a indústria.
Precisamos ser mais competitivos e ter custos menores de logística. Acho que o Brasil tem que gastar mais com pesquisa e desenvolvimento para ser mais inovador e se inserir no mercado do produtos com maior valor agregado. E precisamos melhorar a qualidade de nossa força de trabalho. O Estado tem que frear a ação do crime organizado, que perturba a cena de nossas cidades. Estes investimentos precisam ser feitos para manter o Brasil em destaque na cena internacional.
AT | O Estado mudou a postura em relação à captação de investimentos.
A aposta está correta? LP | Euachoqueocaminhoqueo governo do Estado está seguindo, de fortalecer a infra-estrutura demonstra preocupação com o longo prazo. Demanda tempo, mas é preciso começar, porque a gente constrói o futuro a cada dia. Esta idéia de que estamos perdendo porque não somos competitivos é porque o Estado está fazendo opções muito claras. Agora, o governador tem dito várias vezes que ele só firma contratos que tem condições de assumir. O Estado não vai querer comprometer o seu futuro.
Existe a atração de investimentos, com previsão de R$ 16,6 bilhões entre 2008 e 2010, que é significativo em comparação com o PIB do Estado.
AT | Não deveria haver uma política de transição? LP | Tem sido feitas coisas que vão continuar. Na área petroquímica, houve redução da alíquota do ICMS para 12%. O mesmo se vê no setor naval. A Bahia ainda mantém uma política de atração de investimentos, só que compatível com a capacidade do Estado de cumprir contratos, que é uma preocupação do governador. Vamos evitar rupturas de contratos, que é indesejável para os empresários.
Isso é fundamental, tanto quanto a agressividade.
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